21/01/2018

Como os cristãos estão fortalecendo o conservadorismo nas Américas

O The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, publicou esta semana um longo artigo,  onde avalia a influência dos valores cristãos na pauta política da América Latina. Assinado por Javier Corrales, professor de Ciência Política no Amherst College, uma faculdade católica em Massachusetts, Estados Unidos. Reproduzo o material (com adaptações) abaixo:

Hoje em dia, igrejas evangélicas podem ser encontradas em quase todos os bairros da América Latina – e elas estão transformando a política como nenhuma outra força no continente. São as responsáveis por dar às causas conservadoras, e especialmente os partidos políticos, uma nova força e conquistar novos polos eleitorais.

Na América Latina, o cristianismo costumava ser associado apenas ao catolicismo romano. Ele praticamente exercia o monopólio religioso até a década de 1980. O único desafio para o catolicismo era o anticlericalismo e o ateísmo. Nunca houve concorrência de outra força religiosa. Mas isso mudou.


Os evangélicos hoje representam quase 20% da população na América Latina, em contraste aos 3% de três décadas atrás. Em alguns países da América Central, os evangélicos estão perto de se tornar maioria.
Os pastores evangélicos adotam ideologias variadas, mas quando se trata de questões gênero e sexualidade, seus valores são tipicamente conservadores e patriarcais, ou ‘homofóbicos’ segundo seus críticos. Eles defendem que as mulheres sejam submissas aos seus maridos, dentro da perspectiva dos Evangelhos. Em todos os países da região, eles possuem as posições mais fortes contra a agenda LGBT.

Essa forma de evangelicalismo, de contorno políticos mostra que eles estão oferecendo aos partidos conservadores eleitores das classes econômicas mais baixas, o que é bom para a democracia. Isso está fortalecendo a polarização cultural. De certa forma, a política latino-americana está sendo reinventada pelos pastores evangélicos.

O Brasil é um excelente exemplo do crescente poder dos evangélicos na América Latina. Os 90 membros da bancada evangélica no Congresso frustraram as ações legislativas do lobby LGBT, desempenharam um papel fundamental na saída da presidente esquerdista Dilma Rousseff, e, mais recentemente, impediram exposições imorais em museus.
Um pastor evangélico foi eleito prefeito do Rio de Janeiro, uma das cidades mais ‘gay friendly’ do mundo. Esse ‘case de sucesso’ foi tão grande que os pastores evangélicos de outros países dizem querer imitar “o modelo brasileiro”.

E parece que esse modelo está se espalhando. Aliando-se a movimentos católicos, os evangélicos também organizaram marchas anticasamento gay na Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Peru e México. No Paraguai e na Colômbia, eles conseguiram que os ministérios da educação proibissem livros que falassem de homossexualidade para crianças pequenas. Na Colômbia, mobilizaram-se para derrotar um referendo sobre um acordo de paz com as FARC, o maior grupo guerrilheiro da América Latina, argumentando que esses acordos impunham agendas paralelas do feminismo e de ativismo LGBT.

Como os evangélicos se tornaram politicamente tão poderosos? Afinal, os evangélicos, mesmo no Brasil, ainda são uma minoria, e na maioria dos países a irreligiosidade também está crescendo. A resposta tem a ver com suas novas táticas políticas.
Nenhuma tática tem sido mais transformadora que a decisão dos evangélicos de forjar alianças com os partidos políticos de direita. Historicamente, os partidos conservadores da América Latina tendiam a depender da Igreja Católica e desdenhavam do protestantismo, deixando os evangélicos virtualmente fora da política. Isso mudou. Partidos conservadores e políticos evangélicos estão unindo forças.


As eleições presidenciais do Chile em 2017 forneceram um exemplo perfeito desta união de pastores e partidos. Os dois candidatos de centro-direita, Sebastián Piñera e José Antonio Kast, pediram apoio dos evangélicos. Piñera, que acabou ganhado, tinha quatro bispos evangélicos como conselheiros de campanha.

Há uma razão pela qual os políticos conservadores estão abraçando o evangelicalismo conservador. Os evangélicos estão ajudando a reverter a desvantagem política que os partidos de direita tinham na América Latina: a falta de vínculos com as camadas mais populares. Como observou o cientista político Ed Gibson, os partidos de direita geralmente apelavam para os membros das classes mais altas, geralmente com mais estudo formal.

Mas as igrejas evangélicas estão mudando isso. Eles conseguem dialogar com eleitores de todos os setores da sociedade, mas principalmente os pobres. Por isso, estão transformando os candidatos conservadores em figuras mais populares.

Este casamento de pastores e partidos não é uma invenção latino-americana. Está acontecendo nos Estados Unidos desde a década de 1980, já que a direita cristã tornou-se, indiscutivelmente, o eleitorado mais confiável do Partido Republicano. Até mesmo Donald Trump – que muitos criticam por não se portar como um cristão – concorreu cercado de líderes evangélicos. O maior exemplo foi a escolha do seu companheiro de chapa, Mike Pence, conhecido por ser um evangélico praticante.
Além de formar alianças com partidos políticos, os evangélicos latino-americanos aprenderam a viver em paz com seu rival histórico, a Igreja Católica. Pelo menos quando se trata de questões como casamento gay e aborto, pastores e padres encontraram um terreno em comum.
O melhor exemplo de cooperação tem sido o uso de “bandeiras” conservadoras – termo usado pelos políticos para descrever suas causas. Para os cientistas políticos, quanto mais uma bandeira ganha visibilidade, mais consegue atrair atenção para si e gerar um debate sobre sua importância, fazendo com que se torne uma questão que influencia a política. Um teste definitivo para isso no Brasil pode ser a eleição presidencial de 2018, onde as pautas conservadoras são defendidas por apenas dois pré-candidatos: Jair Bolsonaro e Levir Fidélix.

Luta contra ideologia de gênero
Na América Latina, lideranças católicas e evangélicas conseguiram erguer com sucesso a bandeira mais combatida pelo conservadorismo: a luta contra a “ideologia do gênero”.
O termo é usado para rotular qualquer esforço de promoção da diversidade sexual e de que gênero se escolhe. Quando os ‘especialistas’ argumentam que a diversidade sexual é real e a identidade de gênero é uma construção, os sacerdotes evangélicos e católicos respondem que isso é uma questão de ideologia, não de ciência.
Os evangélicos reiteram que “ideologia” é realmente o melhor termo, pois isso comprova como é algo político. Afinal, tenta mudar – sobretudo nas crianças – a percepção do que a sexualidade nada tem a ver a biologia.


A imposição da “ideologia do gênero” ajudou os religiosos a perceberem que isso implica numa interferência do estado no direito dos pais em passarem valores aos filhos. Na América Latina, o slogan cristão mais comum parece ser: “Não mexa com meus filhos”. E esse é um dos resultados mais visíveis da colaboração de evangélicos e católicos.
Politicamente, podemos estar testemunhando uma trégua histórica entre protestantes e católicos na América do Sul: os evangélicos concordam em abraçar a forte condenação do católicos sobre a diversidade sexual e vice-versa. Juntos, eles podem ter força para enfrentar o crescente secularismo globalista, que rejeita toda manifestação moral religiosa na política.

Com informações gospel prime

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